O desejo pela aldeia

Não lembro a primeira vez que me imaginei como mãe.
Sei que se misturam às lembranças dos contos de fada e brincadeiras de princesa...

Mas lembro bem a inauguração de um desejo físico, na pele (chamado biológico chamam, né?)...

Quando amei pela primeira vez aos 18, compartilhando sonhos e percebendo a potência do amor que pode extravasar de si, veio a sensação de que aquele amor não cabia em duas pessoas, precisava explodir em mais uma.

Acabou que como a maior parte das histórias de primeiro amor, ela teve um fim e não fecundou mais que um par de anos de muitas boas lembranças.

Mas o desejo da maternidade seguiu.

E se intensificou nos anos seguintes, na convivência com crianças pequenas, em especial com irmãos por parte de pai: percebi o encanto de poder revisitar o mundo com novos olhos, aproveitar os pequenos dedinhos que apontam para todos os lados para poder redescobrir a vida.

E, então, passada a infância, a adolescência e a adultescência, quando fui organizando minha vida de mulher e construindo aquilo que queria ser, sabia que me cabia ser mãe.

(Recentemente fui saber também dos desejos inconscientes de nos tornarmos pais para acolhermos nossa própria criança, tudo seria por ela e não por uma nova a se pôr no mundo, mas talvez tenha sido bom só saber disso depois, menos estresse para gerir e mais espaço para gerar).

Precisei encontrar num amor e parceiro o mesmo desejo de ter filhos. E quando isso aconteceu, parecia que nada mais poderia deter esse sonho.

Na família, brincadeiras de um banco de aposta de quem seria a primeira mãe da geração. Eu não via a hora de anunciar a candidatura.

Só que foram muitos meses tentando. Primeiro descompromissadamente, depois em cálculos mais cuidadosos (tabelinhas e afins). Até chegarmos a clínicas, exames e intervenções.

Foi um processo muito estressante: estar atenta ao corpo, ler os sinais, sentir a ovulação, esperar a fecundação e me perder em sintomas que coincidem na menstruação ou gravidez (cólicas, enjôos, sensibilidades).

No mundo paralelo ainda parecia que todas as aldeias estavam crescendo. Todas amigas grávidas, com filhos lindos, férteis e plenas. Inclusive na família, em que a Marilia anunciou: estava grávida. Sua bebê estava a caminho. Aposta resolvida. Uma lindeza. E mais uma notícia para me desejar ser mãe. 

Eu ficava feliz por todas essas mães. Eu fiquei radiante pela Violeta. Mas eu queria ser convidada para a festa também.

Comecei a deprimir e me impacientar. Os anos iam passando, o relógio biológico também (o tic-tac ecoava na minha cabeça). 

Acabamos fazendo uma inseminação. A primeira tentativa não deu certo. Recolhi meus caquinhos pra seguir (inclusive pra ir no chá de bebê da Violeta).

Esperei pela segunda tentativa já sem esperança, pesquisando outros métodos mais potentes (como a fertilização - FIV). Na véspera completei 36, mal bebi pra no dia seguinte estar lá o mais inteira possível para quem sabe...

10 dias depois nascia a Violeta. Fui tomada por uma infinidade de emoções, chorei por dias. E menos de uma semana depois recebi o resultado positivo para o Lucas. O caos de sentimentos se intensificou.

Era muita turbulência em nossa aldeia familiar.

Laços cruzados e eternizados, mas nem todos em fitas cor de rosa, linhas por um fio e muitos nós.

Mas, definitivamente, o tecido de nossa aldeia, nossas fibras, nossas veias, nossa linhagem, ali costurados.


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