Lutos incômodos



Violeta, minha filha, é difícil pra mim me comunicar com vc dessa forma. No seu pouco tempo aqui nesse mundo vc deve ter percebido que mamãe é bem concreta e material: não acredito em missões divinas que vc veio trazer, não acredito em vida após a morte. Talvez fosse mais facil se eu acreditasse nisso tudo, pelo menos veria uma razão no seu tempo ter sido tão curto aqui com a gente. Mas não, foi uma fatalidade. Carregada, é fato, de capitalismo, produtivismo e terrorismo médico, patologizacao do parto, violência obstétrica... e machismo, também. Por isso uma das formas de te homenagear é seguir na luta por um novo mundo, onde mulheres e crianças possam ser respeitadas e tenham direito ao futuro.

No entanto me parece poético conversar com vc como se vc estivesse num outro plano, como se tivesse virado uma estrela, como se fosse um anjinho que desceu carregando essa breve missão na terra.

É contraditório, eu sei, mas é minha forma de seguir também. Talvez possa parecer um pouco egoísta, na verdade já fui julgada por compartilhar essas reflexões assim tão escancaradamente, mas não se trata apenas de elaborar meu luto interminável e às vezes invisível, as vezes incômodo. Sabe, não é fácil pra nossa sociedade lidar com o luto, a morte, a angústia, a tristeza. As pessoas querem abafar, esconder, te consolar, te colocar pra cima. A felicidade é compulsória.

Eu tô falando das pessoas mas olha, eu entendo todos, os que sabem ou os que não sabem como agir, o que dizer. Pq de verdade eu não estaria nem viva se não fossem cada uma delas, que mesmo no incômodo ou no silêncio estiveram e estão segurando nossa mão, nós temos muita sorte por ter tanta gente boa perto da gente.

Então é tb uma forma de naturalizar esses sentimentos, essas emoções, porque não existe outra maneira de homenagear vc que não passe por lembrar de todo amor mas tb de toda a dor que eu senti. 

Eu falei pro teu irmão, ele é pura energia, música e alegria, ele está o tempo todo cantando e pulando - vc ia gostar tanto de conhecer ele, eu tenho esse sonho as vezes, que vcs estao brincando juntos e estamos lendo historinha deitados na cama dele e estamos na casa da vovó ou na praia - mas ele entende tb de coisas complexas da forma dele como uma crianca de 4 anos, ele sabe tudo sobre vc, ele fala de vc, conta para todos que tem uma irmãzinha chamada Violeta, mas ela morreu. E sempre que falamos sobre o tema morte ele se lembra de vc. Eu pedi perdão pra ele filha, porque essas últimas semanas eu vi de perto duas mães que perderam seus filhos pequenos e me vi nelas, e as pessoas estavam lá tentando consolar ou dizer para lembrar das crianças com alegria. E eu quero lembrar com alegria de vc, eu pedi desculpas porque o João Pedro merece uma mãe mais alegre. E sabe, eu sou uma pessoa alegre, todo mundo nota isso e fala, mas eu sou mãe dele e sou tua mãe tb, essas duas coisas fazem parte de mim, então esse sentimento, essa parte faltando, vai se mostrar às vezes mais às vezes menos. Nas últimas semanas mais.

É para elaborar o luto que escrevo, é pela poesia de te homenagear e conversar contigo, é para que as pessoas nao se esquecam de vc, me ajuda demais. Mas é também para que todas as pessoas, as mães que passaram por algo assim, saibam que as emoções delas não são inconvenientes, que a dor, a tristeza e o luto precisam cavar espaço para que nesse buraco a gente possa plantas novas sementes que vão germinar. Que temos esse direito de sentir o que a gente precisar pelo tempo que a gente precisar.

Hoje vc faria 6 anos [8 de dezembro, texto postado com alguns minutos de atraso], mas vc viveu pouco menos de 3 meses. Eu vivi muito mais com sua ausência que com sua presença. Mas não me acostumo com essa vida sem vc. Sinto sua falta todos os dias, falta do que nao vivemos, e penso em como seria, como vc seria, se estivesse aqui. 6 anos, puxa!

Então, poeticamente, feliz aniversário! Te amo 💜

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